(Raquel Pereira)
A semana corria desenfreada. Final de ano, aquela loucura... documentos,
papeladas, trabalhos para corrigir; tudo acontecia como, normalmente, deveria
ser no final do último bimestre letivo.
Saí de casa adiantada, estava esperando
no ponto de ônibus com tempo de sobra! Chegaria cedo ao trabalho...chegaria,
claro! Não cheguei. Verbo conjugado no tempo certo.
Foi ELA, “ela”, que me fez
perder no tempo:
- Ufa! Ai, minha filha, vou sentar um pouco. Não aguento minhas
pernas.
- Ah! É bom parar um pouco, está muito quente - respondi.
Ela me contou
a desventura que é, na idade dela, não ter família; ter de resolver todas as
coisas sozinha. Enquanto falava, notei em seu braço uma tatuagem amparada por
pequenos corações; entre eles havia um nome: “FRANCISCO”.
Naquele momento, não
pude conter-me de curiosidade e perguntei quem era ele. Seu rosto abandonou todo
cansaço; toda sua dor se transformou em felicidade, devolvendo-lhe novamente o
sorriso.
- Ah! FRANCISCO... ele era meu marido. Amava brincar! Quando chegava do
trabalho, dizia para que eu deixasse a louça na pia e fosse me aconchegar em
seus braços.
Naquele ponto da conversa, eu sabia bem pouco sobre aquele homem,
mas os olhos daquela mulher brilhavam de tal modo que seu rosto inteiro se
iluminava. A cada palavra dita, eu virara testemunha do bem que aquele homem lhe
fizera em vida; participava daquelas lembranças com uma espectadora atenta à
história narrada.
Em uma certa altura, quis perguntar quem era aquela mulher
que, afinal, me deixava participar tão intimamente de suas lembranças, mas não
tive coragem de interrompê-la. Ficou sendo um pacto nosso, estabelecido assim:
não importava quem era Ela ou Eu, o importante era ELE e o quanto toda aquela
vida ao seu lado tinha sido boa.
Toda pressa e atraso sumiram, e o tempo parou.
O ônibus passou justamente naquele momento mágico, onde eu vivenciava e me
tornava cumplice de uma linda história de amor. Uma história simples, mas
imensamente bela, que nada ficava devendo aos lindos romances dos meus autores
favoritos.
A cada palavra dita, a cada lembrança revivida, era como se estivesse
virando a página de um livro vivo, humano. Estava tão impactada que meu corpo,
anestesiado, não conseguiu interromper aquele fantástico fluxo de conexão e ir
embora; e foi assim que vi passar por mim o transporte que me levaria ao
trabalho.
Àquela altura do campeonato, eu já havia virado coparticipante em uma
história narrada por uma desconhecida, que mudava minha rotina de forma tão
desconcertante. Eu não sabia quase nada sobre ela, mas, ao mesmo tempo era tão
intima de suas confidências. Depois de algum tempo, ela respirou, levantou e se
despediu. Fiquei parada, olhando sua silhueta desaparecer no horizonte.
Meu
ônibus veio; estendi os braços, subi e me sentei. Na minha mente, as paisagens
se misturavam; não via o caminho rotineiro de costume. Pelo contrário: minha
alma, pela janela do ônibus, via a história daquela senhora. ELA, agora, tinha
de contentar-se apenas com as lembranças.
Ah, FRANCISCO, se você soubesse o
tamanho da saudade estampada no braço e no peito, não teria ido embora! Agora,
era só ELA; e viver só não era vida para ninguém. Viver sozinha “ Era como ser o
seu próprio time, tinha de driblar o adversário, cruzar para si mesma, fazer
gol, defender-se”.[1]
[1]CARRASCOZA, Joao Anzanello - Aos 7 e aos 40.
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